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  • 28.07.2026

Vivemos do Passado: A Decadência do Futebol Brasileiro

Por Dr. Adriano César Carneiro Loureiro
Superintendente do Centro de Formação Olímpica 

 

O Brasil carrega a alcunha de “país do futebol” como um título que já não condiz com a realidade. Pentacampeão desde 2002, acumulamos mais de duas décadas sem uma taça mundial. A eliminação recente na Copa de 2026 reacendeu o debate, mas o problema não nasceu neste último mundial, é resultado de um processo bem mais antigo e estrutural. Falta um sistema esportivo nacional bem estruturado, que funcione. Os diagnósticos mais repetidos: falta “raça”, falta “geração de craques”, falta “sorte no sorteio”, não explicam e cobram pouco de quem decide os rumos do esporte no país. O problema é mais profundo, mais estrutural e, sobretudo, mais incômodo de discutir, porque envolve educação, gestão, dinheiro e um projeto de país que simplesmente não existe para o esporte de base.

O adversário não é mais o mesmo

Enquanto o Brasil discutiu a convocação do time com uma “festa de gala” organizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), um evento com palco, atrações musicais e apresentações que a própria imprensa chamou de sem sentido, a Europa discute investimento. Segundo o relatório European Club Finance and Investment Landscape, publicado pela UEFA, a receita do futebol de clubes no continente deve ultrapassar 30 bilhões de euros em 2025. Esse patamar é resultado de uma tendência de dez anos: a receita anual agregada dos clubes europeus, que girava em torno de 17 bilhões de euros em 2015, subiu mais de 13 bilhões de euros nesse período, um salto de quase 80%, ou seja, o setor praticamente dobrou de tamanho nessa década.

Só em investimentos em estádios e centros de treinamento, os clubes europeus aplicaram 2,4 bilhões de euros em 2024, recorde pelo segundo ano seguido. Real Madrid, Barcelona e Everton, cada um isoladamente, investiram mais de 100 milhões de euros só em infraestrutura, parte relevante desse valor voltada justamente aos centros de formação, não apenas às arenas de jogo. É nesses centros cada vez mais sofisticados que entram departamentos de análise de dados, fisiologia, nutrição, tecnologia e educação formal integrada à rotina do atleta, uma estrutura de formação que nenhum clube brasileiro consegue bancar na mesma escala.

Foto: Getty Images

 

Do outro lado desse mercado bilionário está a figura do empresário de futebol. Segundo o Relatório de Agentes de Futebol da FIFA de 2025, os clubes ao redor do mundo gastaram um recorde de 1,168 bilhão de euros em comissões pagas a agentes e intermediários em transferências internacionais, 90% a mais que no ano anterior, com a maior parte concentrada em clubes filiados à UEFA. Uma fatia crescente desse mercado vem da captação cada vez mais precoce de jovens talentos em países como o Brasil.  Estudos sobre o mercado de transferências brasileiro já documentaram que agentes se aproveitam do sonho de famílias de baixa renda, convencendo pais a autorizar a saída de meninos ainda adolescentes, muitas vezes antes mesmo da idade mínima legal para contrato de trabalho, prometendo uma vaga de destaque na Europa que, na prática, poucos alcançam. Para cada Vini Júnior que se firma, dezenas de garotos vendidos ainda na base viram ativo esquecido no banco de reservas de algum clube europeu de segundo escalão, longe da família, do idioma e, muitas vezes, do próprio sonho que os tirou do Brasil.


O caso Messi: o “DNA sul-americano” basta?

Nenhum exemplo ilustra melhor essa distância entre discurso e estrutura do que Lionel Messi. É comum ouvir que ele representa o “jeito argentino”, o “DNA sul-americano” de jogar, e é verdade que ele começou a jogar aos cinco anos de idade em Rosário, revelado nas categorias de base do Newell’s Old Boys. Mas aos 13 anos, diante de um diagnóstico de deficiência de hormônio do crescimento que sua família não tinha como custear, foi o Barcelona quem pagou o tratamento e o levou para La Masia, a academia de formação do clube, criada para oferecer moradia, acompanhamento pedagógico e desenvolvimento técnico integrado a jovens jogadores. Foi lá, e não na Argentina, que Messi passou a adolescência decisiva de sua formação como atleta de elite, ao lado de outros nomes que o próprio sistema revelou, como Xavi, Iniesta e Busquets.

O resultado desse investimento em formação apareceu de forma simbólica em Copas do Mundo. Em 2026, a Espanha, cujo elenco reúne nomes como Lamine Yamal, Pedri e Gavi, todos formados em La Masia, a mesma academia de Messi, venceu a Argentina por 1 a 0 na final, sagrando-se bicampeã mundial. Messi, com sua ajuda direta, levou a Argentina a três finais de Copa do Mundo: 2014, 2022 e 2026, um feito notável para uma seleção sul-americana atualmente. E ficam algumas perguntas: será que Messi teria se tornado o mesmo jogador, e ajudado a Argentina da mesma forma, se tivesse sido formado inteiramente dentro do sistema sul-americano de hoje? Será que ele teria a disciplina necessária para tal longevidade esportiva? Será que, sem um craque de referência, o futebol sul-americano, enquanto time, consegue encarar as superpotências europeias de hoje?

 

A escolaridade que ninguém audita

Um fator quase ausente do debate público é a escolaridade dos próprios atletas. Um levantamento com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho (referente a contratos assinados em 2018/2019, o dado mais recente disponível publicamente sobre o tema), mostrou que, entre 3.329 jogadores com 18 anos ou mais contratados por clubes brasileiros num período de quatro meses, apenas 1,4% declararam ter cursado uma faculdade, 47 atletas, dos quais só 20 com o Ensino Superior completo. Já 83,3% declararam ter concluído apenas a Educação Básica, até o Ensino Médio. A própria CBF não divulga oficialmente a formação escolar dos convocados à seleção, mas são vários os relatos, ao longo de diferentes gerações, de craques que deixaram os estudos de lado ainda cedo para se dedicar à carreira, a trajetória escolar da maioria dos jogadores de elite brasileiros simplesmente não é registrada. Isso não apaga o que há de mais genuíno no futebol brasileiro: a ginga e a habilidade que nascem da rua fazem parte do nosso DNA esportivo, e nenhum sistema europeu ainda conseguiu reproduzir isso com facilidade.

Foto: Getty Images

Não existe estudo comparativo direto e definitivo entre a escolaridade de atletas brasileiros e europeus, essa é uma limitação que precisa ficar clara, mas há uma hipótese razoável, ainda que não comprovada, de que a leitura tática e a tomada de decisão sob pressão durante um jogo têm relação com a capacidade cognitiva desenvolvida (ou não) pela educação formal. O 7 a 1 para a Alemanha em 2014, por mais que seja um único jogo e não uma prova estatística de nada, segue sendo o símbolo mais cru dessa assimetria entre um adversário estruturado e um time brasileiro em pane emocional e tática.

Essa relação entre escolaridade e desempenho em campo, que discutimos até aqui no nível de cada jogador, pode, inclusive, ter uma raiz mais ampla. É razoável supor, sem que isso seja um dado comprovado, apenas uma leitura plausível, e reconhecendo que há inúmeras exceções, que ambientes com mais estabilidade econômica e social tendam a oferecer às suas crianças e jovens mais acesso a recursos educacionais, mais previsibilidade no dia a dia e menos exposição a situações de estresse crônico. Esses fatores, por sua vez, podem influenciar o repertório emocional e cognitivo que um atleta leva para dentro de campo em momentos de alta pressão. Não se trata de atribuir esse resultado a características de um povo ou de uma nacionalidade, mas de reconhecer que o ambiente em que um jovem se desenvolve, em qualquer país, molda parte do que ele se torna como profissional.

O campeonato que perdemos sem perceber

 

Até 2002, ano do nosso último título mundial, o Campeonato Brasileiro decidia seus títulos majoritariamente no mata-mata, um formato que, ironicamente, treinava os jogadores do país inteiro para o jogo único, típico das fases eliminatórias de Copa do Mundo. A partir de 2003, sob decisão do então presidente da CBF Ricardo Teixeira, mais tarde banido do futebol por corrupção, o campeonato nacional migrou para o modelo de pontos corridos, à imagem das ligas europeias. O formato de jogos mata-mata, porém, continua existindo em algumas competições nacionais, mas hoje é vivido com muito menos frequência do que antes.

Um dos princípios centrais do treinamento esportivo é o da especificidade: quanto mais um atleta reproduz, em treino e em competição, o formato que vai enfrentar na hora decisiva, mais adaptado ele estará para aquele contexto. Copiar o modelo europeu de pontos corridos para um país de dimensão continental pode ter tido um efeito colateral pouco discutido: a Série A do Brasileirão tem hoje apenas 20 clubes disputando a elite nacional, um número baixo para a extensão e a população do país, o que reduz o acesso de jovens talentos ao mais alto nível de competição. Ao mesmo tempo, os campeonatos estaduais, historicamente decididos em mata-mata, perderam relevância progressivamente, encolhendo ainda mais o espaço desse formato de competição. O resultado é uma geração de jogadores menos rodada em decisões de jogo único do que as anteriores. Não é, isoladamente, o principal motivo da nossa dificuldade nesses jogos, mas pode ter contribuído.

Foto: Getty Images

 

Essa perda de repertório específico em jogos mata-mata se conecta diretamente à hipótese levantada anteriormente sobre escolaridade e fatores sociais: se a leitura tática e o controle emocional sob pressão durante o jogo têm relação com a capacidade cognitiva desenvolvida pela educação formal, é exatamente no formato de eliminação única, sem margem para erro, sem jogo de volta, que essa diferença tende a pesar mais. Um time pode ter lapsos de leitura de jogo ao longo de um returno de pontos corridos; num mata-mata de Copa do Mundo, cada erro de leitura custa a eliminação. É esse cruzamento, menos treino específico no formato, somado a um repertório tático e psicológico mais frágil, que fragiliza o desempenho brasileiro exatamente no tipo de disputa que decide um título na Copa do Mundo.

Não estou afirmando aqui que o sistema de pontos corridos seja, por si só, prejudicial. Países como Espanha, Alemanha, França e Inglaterra disputam ligas nesse formato há décadas e seguem competitivos em Copas do Mundo. A diferença é que esses países compensam essa característica com um sistema de formação mais robusto, maior escolaridade média, melhor preparação tática e maior estabilidade institucional. No caso brasileiro, o formato não explica, por si só, a perda de competitividade, mas pode potencializar fragilidades já existentes em um sistema de formação esportiva menos estruturado.

E a corrupção?

Essa mudança é só um capítulo de um problema maior de gestão. Nomes como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, todos ex-presidentes da CBF, foram formalmente investigados ou condenados por corrupção em escândalos que incluem o caso conhecido como Fifagate. Um esporte gerido, por décadas, por dirigentes sob suspeita não é o ambiente ideal para planejar, com visão de longo prazo, o modelo de competição mais adequado ao desenvolvimento esportivo do país.

Foto:  Getty Images

 

A má gestão, porém, não se limita ao passado. Vale ainda registrar dois fatores mais recentes e difíceis de medir com precisão, mas que também corroem o desempenho esportivo por caminhos diferentes. De um lado, a influência de empresários sobre convocações e escalações, que por vezes parece pesar mais que o critério puramente técnico, tirando de campo o atleta mais preparado em favor de interesses comerciais. De outro, a exposição de jovens atletas, em situação de vulnerabilidade social, ao risco de manipulação de resultados ligada às apostas esportivas online: jogadores endividados ou aliciados que se tornam alvo fácil para esquemas de fraude esportiva, um problema que já gerou investigações envolvendo atletas brasileiros nos últimos anos. 

Menos rua, menos várzea, menos professor

O Brasil de hoje tem uma parcela mínima de clubes profissionais de futebol com acesso a calendário nacional (apenas 14,6%, segundo a CBF), menos campeonatos estaduais relevantes, menos escolinhas de futebol em escolas básicas e menos competições interclasses e intercolegiais, que revelavam vencedores desde cedo. A urbanização violenta, a internet e a pressão das famílias por desempenho escolar afastaram crianças da rua e da várzea, os antigos celeiros informais de craques, um afastamento que aparece nos números: a obesidade infantil no Brasil cresceu 70% entre 2008 e 2021, segundo o Ministério da Saúde, e um em cada três adolescentes brasileiros está hoje com sobrepeso. Não é exagero dizer que, no Brasil de hoje, há simplesmente menos crianças jogando futebol do que havia há duas ou três décadas.

É precisamente por isso que a escola básica e o profissional de Educação Física cumprem um papel que vai muito além da aula em si: são eles que sustentam, no dia a dia, a cultura esportiva de um país, oferecendo a jovens sem acesso a clubes particulares o primeiro contato estruturado com o esporte. Quando esse elo se enfraquece, com professores mal remunerados, sem estímulo à capacitação e obrigados a dividir a rotina entre vários empregos para sobreviver, o país perde não um evento isolado, mas uma geração inteira de possíveis atletas que nunca chegaram a ser descobertos.

Foto: Getty Images

 

Esse encolhimento não é acidental, é resultado de uma responsabilidade estrutural, dividida entre vários atores que falharam ao mesmo tempo. Os clubes preferem, em geral, manter uma estrutura enxuta e de custo controlado a assumir o risco financeiro de formar em maior escala. A escola, por sua vez, deixou de estimular a prática esportiva como fazia décadas atrás, reduzindo aulas de Educação Física, escolinhas e competições internas a um papel cada vez mais secundário no currículo. E o próprio estilo de vida contemporâneo, mais tempo de tela, mais insegurança urbana, mais cobrança por desempenho acadêmico desde cedo, não ajuda a trazer a criança de volta ao campo. Um país de mais de 200 milhões de habitantes hoje forma atletas com uma estrutura de base proporcionalmente menor que a de nações muito menores, não por falta de talento, mas porque nenhum desses três pilares, clube, escola e sociedade, está fazendo, hoje, o que fazia antes. Recuperar isso exigiria política pública eficiente: retomar o investimento em Educação Física escolar, valorizar e capacitar o professor, e recriar, mesmo que de forma organizada e segura, os espaços de prática esportiva livre que a cidade de hoje já não oferece por conta própria. 

O aviso

Importante destacar que nenhum desses pontos, isoladamente, explica a decadência do futebol brasileiro. Porém, juntos, formam um retrato mais honesto do que qualquer análise tática de jogo.

Vivemos, ainda, da imagem de um país que foi cinco vezes campeão do mundo, mas a última vez que erguemos aquela taça, a internet mal existia para o público em geral, e a Europa ainda não tinha profissionalizado sua indústria de formação como fez nos últimos vinte anos. O adversário mudou de patamar; o Brasil, em grande parte, continuou tentando vencer com o mesmo modelo emocional e improvisado que um dia deu certo, mas não é mais suficiente.

E o problema não se limita ao resultado esportivo. Perdemos, junto com a cultura da rua e da escola, o hábito de nossas crianças e jovens se movimentarem, um custo que vai muito além do campo, como já vimos. Não existe alto rendimento sem base larga: nenhum país do mundo revela craques a partir de uma pirâmide esportiva estreita. O rendimento de ponta é, sempre, consequência de dois fatores combinados: massificação da prática esportiva entre crianças e jovens, e investimento consistente e de longo prazo nessa base. Sem os dois juntos, não há geração de ouro que se sustente.

Mais do que medalhas e taças, a formação esportiva na infância e na adolescência carrega valores que transbordam o campo: disciplina, trabalho em equipe, respeito a regras e ao adversário, resiliência diante da derrota, inclusão social e senso de pertencimento comunitário. Um país que investe em esporte de base não está apenas formando atletas, mas formando cidadãos mais saudáveis, mais disciplinados, mais capazes de conviver com diferenças e de lidar com frustração. É, em última análise, um investimento em uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais engajada, dentro e fora de campo.

Se o país não repensar, com urgência, o financiamento da base, a valorização do professor de Educação Física, a governança de suas entidades esportivas e a relação entre escola e formação do atleta, continuará vivendo do passado. E deixará de ser, de fato, “o país do futebol”.